Na Mídia: Nova geração de ativistas do clima quer dar voz a quem não tem

A dificuldade de encontrar consenso em negociações, observada durante a COP30 e edições anteriores da conferência, coloca o peso da busca por soluções para frear o aquecimento global nas costas das jovens gerações de ativistas ambientais. Serão eles, que já nasceram com o DNA da conservação latente, que mais sentirão na pele os efeitos do agravamento das mudanças do clima. Ao mesmo tempo que carregam o idealismo e a energia necessários para atuar na linha de frente pela defesa de medidas alinhadas à ciência e que protejam o planeta.

É o caso da ativista mexicana Shurabe Mercado, de 23 anos. Há quase uma década, a jovem passou a atuar na causa, sobretudo, por conta da baixa qualidade do ar de Toluca, cidade onde nasceu e cresceu. Hoje, ela busca denunciar a “injustiça climática” e critica o uso de combustíveis fósseis como principal fonte da matriz energética do México.

— Crescer nessa realidade foi meu despertar. Compreendi que não era uma crise apenas ambiental, mas também social e econômica. Por isso, passei a lutar por uma transição justa — afirma Shurabe, que entende a atuação da juventude pelo clima não como o “futuro”, mas como o “presente”. — Construímos soluções enraizadas em nossas histórias e territórios.

Questão de sobrevivência

O desejo de combater a desigualdade social também motivou a produtora cultural carioca Marcele Oliveira, de 26 anos. Ela foi escolhida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como a embaixadora da juventude climática na COP30.

A jovem entrou em contato com os problemas ambientais enquanto lutava por um parque em Realengo, na Zona Norte do Rio. Hoje, integra a Coalizão Clima de Mudança, que busca mobilizar o combate a enchentes, e atua na organização Perifalab, que toca o programa Jovens Negociadores pelo Clima em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente da capital carioca.

— Quando você se torna um ativista, não deixa de prestar atenção em todas as injustiça e desigualdades do dia a dia. Permaneço nesse papel de coordenar as juventudes até a COP31, mas com olhar atento para a pauta da cultura, das mulheres negras e da inclusão das crianças e jovens com deficiência nas pautas ambientais.

Para Gabi Brasiliae, mobilizadora do Instituto Internacional Arayara, “o jovem se preocupar e se engajar na luta socioambiental é uma questão de sobrevivência”:

— Somos nós que não conseguimos viver a juventude porque vivemos sobre a ansiedade de que uma enchente, uma seca, ou novas pandemias causadas pela destruição ambiental possam interromper todos os planos de vida. Precisamos ser ouvidos e incluídos no processo de construção de políticas de clima.

Aos 11 anos, Mateus Fernandes sobreviveu a uma operação policial dentro da escola, em Guarulhos, quando percebeu ser impossível normalizar a violência racial que marcava a comunidade em que morava. Ao voltar para casa, o sentimento de “revolta” acendeu nele um olhar para a desigualdade e lhe trouxe questionamentos como porque o verde não chega às periferias.

— Eu me tornei ativista climático pela urgência e pela necessidade. Pelo incômodo de entender que, como pessoa negra, eu e os meus estávamos expostos a violências que não eram acidentes, eram estruturas. Perguntava por que nossos bairros têm tão poucas árvores, tão poucos parques, tão pouca sombra? Por que a nossa paisagem sempre foi feita de concreto quente, esgoto a céu aberto e ausência de direitos?

Mateus Fernandes trabalha com educação ambiental — Foto: Divulgação/Guilherme Lopes
Mateus Fernandes trabalha com educação ambiental — Foto: Divulgação/Guilherme Lopes

Hoje, aos 25 anos, o jovem se dedica ao projeto InfoPerifa, fundado por ele. A iniciativa trabalha pela educação ambiental popular e combate à desinformação a partir das favelas brasileiras.

O menino Miguel Lourenço, de 12 anos, também levou o DNA ambientalista para a COP30. Ele fez parte da delegação do instituto Crias do Tijolinho, fundado em 2019 pela ativista Kamila Camilo, que reúne menores moradores do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Lourenço desenvolveu um ativismo climático calcado nas habilidades com grafite, fotografia e design. Durante da COP30, ele pôde compartilhar como é a rotina de uma criança que mora em comunidade e que enfrenta as consequências da crise climática, além de propor soluções baseadas na realidade na qual vive.

— As crianças precisam ter voz. A gente é o agora — diz o menino.

Papel do Sul Global

Nascida na Índia, a jovem Grace Vegenasana, de 26 anos, cresceu na Austrália. Por meio de relatos de familiares, ela soube como as mudanças nas condições ambientais impactavam o cultivo da fazenda e aprendeu sobre deslocamento climático ao ver comunidades indígenas sendo forçadas a deixar suas terras devido à desertificação e à mineração.

— O propósito da minha vida é deter a crise climática na sua origem. A minha responsabilidade, como jovem na Austrália, é ajudar a combater esta crise que prejudica as comunidades no Sul Global. Quero lutar por uma transição justa para longe dos combustíveis fósseis.

Fonte: O Globo

Foto: Reprodução / Valor / Leo Pinheiro

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